Por Jean Monbourquette
Apprivoiser son ombre. Le côté mal aimé de soi
Québec, Novalis, 2001
Excertos adaptados
A minha sombra é minha amiga ou minha inimiga? Tudo depende da forma como a considero, como me relaciono com ela. Quando a encontramos pela primeira vez, surge como uma inimiga. O desafio é transformá-la em nossa amiga.
A sombra e a auto-estima
Carl Jung lembra que o psiquismo humano é um espaço de lutas íntimas: É sabido que os dramas mais emocionantes e mais estranhos não são os que se passam no teatro, mas sim no coração de todos os homens e mulheres. Estes vivem sem chamar a atenção e não deixam transparecer de forma alguma os conflitos tumultuosos que os habitam, a não ser que se tornem vítimas de uma depressão cujas causas eles próprios ignoram.(1)
É fundamental que reintegremos a nossa sombra. Quem recusar este trabalho sobre si mesmo arrisca-se a ter desequilíbrios psicológicos sérios. Terá tendência para se sentir stressado e deprimido, viverá atormentado por um sentimento vago de angústia, de insatisfação consigo próprio e de culpabilidade. Ficará sujeito a toda a espécie de obsessões e será susceptível de se deixar arrastar pelos seus impulsos: ciúme, cólera mal gerida, ressentimentos, desvios sexuais, gula, etc.
Entre as dependências humanas mais comuns encontramos o alcoolismo e a toxicodependência, que tantos danos causam nas sociedades modernas. Sam Naifeh, num excelente artigo sobre as causas da dependência, afirma: A dependência é um problema da sombra.(2) De facto, a atracção compulsiva pelo álcool e pelas drogas provém da busca incoerente do lado sombrio do nosso ser. Acusamos as substâncias tóxicas de serem a causa de desgraças humanas, mas, na verdade, elas são apenas a sua causa indirecta, pois permitem ao seu utilizador ultrapassar os limites da consciência.
Assim, por uns momentos, o utilizador pode identificar-se com o lado sombrio de si mesmo, lado esse que o atrai constantemente. A parte sóbria do alcoólico sentir-se-á permanentemente insatisfeita enquanto não encontrar a parte alcoólica escondida na sombra.
Domar a Sombra para manter relações sociais sãs
Perturbações causadas pela projecção da sombra
Se a sombra não for reconhecida e acolhida, não só criará obsessões como forçará a sua entrada no consciente sob a forma de projecções sobre as outras pessoas.
Quais são os efeitos da projecção da sombra sobre os que nos rodeiam? Sob a influência das projecções da sua sombra, uma pessoa deturpa a sua percepção do real. Atribui aos outros os traços ou qualidades que não quer ver em si. Terá então tendência para idealizar os portadores das suas projecções, para desprezá-los ou para temê-los. Em resumo, o “projector” chegará a ter medo das projecções da sua sombra. Vê-la-á em pessoas que, aos seus olhos, serão fascinantes ou ameaçadoras, como se o seu olhar fosse um espelho deformante.
Quando tais fenómenos ocorrem nas relações sociais, há que esperar conflitos. Por uma curiosa lei de reflexão da luz, as projecções reflectem-se no próprio projector e apoderam-se dele. A pessoa cai sob o fascínio ou a repulsa da sua própria sombra.
À semelhança de um pugilista que treina tentando acertar na sua sombra, estará condenada a executar um contínuo e esgotante exercício de shadow boxing (3).
Resolução dos conflitos criados pela projecção da sombra
Se alguém projecta os seus próprios defeitos ou fraquezas sobre outra pessoa, dificilmente conseguirá tolerar ou amar essa outra pessoa, quer ela seja o patrão, o vizinho, o cônjuge, ou o filho. Este semelhante há-de enervá-lo e há-de dominá-lo. Referimo-nos aqui à maior parte dos conflitos interpessoais e das disputas profissionais.
Para Carl Jung, a tomada de consciência das nossas projecções sobre os outros e do seu reflexo em nós produz não só uma melhoria nas relações interpessoais, mas também um efeito benéfico em toda a sociedade. Segundo Jung, todo o homem que se esforça por estar de acordo com a sua sombra, a fim de reintegrar as suas projecções, faz algo que beneficiará o mundo: Por mais ínfimo que esse trabalho nos pareça, através dele conseguimos encontrar soluções para os enormes e inultrapassáveis problemas do nosso tempo (4).
A moral da lei e a criação de “bodes expiatórios”
Erich Neumann considera que uma ética preocupada apenas em determinar o que é bem e o que é mal é deficiente, porque não ajuda a pessoa a descobrir em si as raízes do mal e a munir-se de meios para as suprimir. Em oposição a esta ética, a que chama A Velha Ética, Neumann propõe uma outra – A Nova Ética – na qual o essencial da formação da consciência moral consiste em realizar a integração da sua sombra.
Neumann vê neste trabalho psico-espiritual um elemento determinante para a formação de uma verdadeira consciência moral. Longe de projectar nos outros as tendências desordenadas da sua sombra, o novo ser moral reconhece-as em si, assume a responsabilidade por elas e depois integra-as numa vida moral coerente.
A Velha Ética leva eventualmente à criação de uma mentalidade de “bode expiatório”, mentalidade que se manifesta, em primeiro lugar, no plano da vida pessoal, como fonte de antipatias e de conflitos de natureza relacional. Por vezes, essa mentalidade corre o risco de tomar proporções gigantescas quando transpostas a uma escala nacional. A este nível, a sombra tenderá a ver o diabo nas nações vizinhas e depois assume a missão de as destruir. Não terá sido esta a origem de numerosos conflitos armados ao longo da história? Pela mesma lógica, os estrangeiros, as minorias e as pessoas “diferentes” serão o alvo preferencial de projecções e transformar-se-ão em “bodes expiatórios”.
Para Neumann, só uma Nova Ética irá possibilitar às nações reconhecerem as suas próprias tendências perversas em vez de as projectarem. Será preciso recordar que as projecções da sombra colectiva não são inofensivas mas podem gerar perseguições e hecatombes, como o extermínio dos judeus pelos nazis?
(1) C.G. Jung, Psychology and Religion: West and East. (Collected Works,7), Bollingen Series, Princeton University Press, 1938, p. 528.
(2) S. Naifeh, “Archetypal Foundations of Addiction and Recovery”, in Journal of Analytical Psychology, 40, 1995, p.148.
(3) Exercício de boxe simulado com a sombra.
(4) C.G. Jung, op. cit., p.140.
A concepção junguiana da sombra
Jung à descoberta da teoria da sombra
Jung, bem familiarizado com a psicanálise freudiana, conhecia a existência do mundo recalcado do inconsciente. Mas a ideia de este ser formado por recalcamentos de entidades psicológicas pessoais não era do seu agrado. Precisava de ir mais longe.
As suas pesquisas sobre os mitos, os sonhos, as desilusões psicóticas e ainda o estudo de desenhos feitos por povos primitivos e por crianças, levaram-no à conclusão de que existe um outro inconsciente mais profundo, “o inconsciente colectivo”. Jung define-o como a memória de um conjunto de imagens ou de motivos, inata e comum a toda a humanidade. Chamou a estas configurações universais “arquétipos” porque se encontram em todas as civilizações. Para ele, a sombra era um desses arquétipos fundamentais.
Formação de uma sombra mordaz e desagregada
Para sermos mais precisos quanto à natureza da sombra, podemos dizer que se assemelha a variadas constelações, cada uma delas constituindo um “complexo psíquico”. Por sua vez, cada complexo é composto por um conjunto organizado de imagens, palavras e emoções, formando uma estrutura autónoma e dissociada do eu consciente. Esta estrutura constitui uma “sub-personalidade” comparável a uma “personagem” de uma peça de teatro, autónoma, independente do encenador e dotada da sua própria personalidade.
Estes complexos surgem muitas vezes nos sonhos do homem. Por vezes exercem sobre ele uma influência tão forte que ele se sente literalmente possuído. Desta forma, o homem faz o que não quer e não pode fazer aquilo que desejaria, como lamenta S. Paulo ao falar do “homem velho” que há em si(*).
(*) Carta de S. Paulo aos Romanos 7, 19.
Três atitudes a evitar no trabalho com a sombra
Identificar-se com o ser ideal, excluindo a sombra
Que acontece a quem se identifica exclusivamente com o seu ser ideal? Uma tal identificação leva não só à negação das pulsões da sombra, mas também à negação da própria existência da sombra. Além disso, a pessoa que o fizer tem de obedecer rigorosamente aos códigos do seu meio social. Levada pelo medo de ser excluída, vai criar uma ansiedade incontrolável à menor infracção das regras que protagonizar. Muito atenta às expectativas, reais ou imaginárias, do seu meio e extremamente preocupada em cuidar da sua imagem perante a sociedade, acabará por renunciar a satisfazer as suas aspirações mais autênticas.
Identificar-se só com a sombra
Uma outra forma de actuar consiste em privilegiar o lado sombrio de si próprio e obedecer indiscriminadamente às pulsões. Quem opta por esta solução, fica muito rapidamente prisioneiro da sombra. Adopta toda a espécie de comportamentos reprováveis: comportamentos desviantes, instintivos, primitivos, infantis e regressivos. A vida em sociedade tornar-se-ia impossível para essa pessoa, porque daria livre curso às suas tendências sádicas, invejosas, ciumentas, sexuais e outras. Em resumo, quem aceitar tornar-se a sua própria sombra, condena-se a viver subjugado pelos seus desejos.
O romance de Robert Louis Stevenson, The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, ilustra bem o perigo da identificação total com o lado sombrio. John Sanford, analista junguiano, fez uma análise penetrante desta história na qual o herói, o Dr. Henry Jekyll, sucumbe ao fascínio progressivo exercido pela sua sombra. Ao beber uma poção que ele mesmo preparara, o generoso médico transforma-se, pouco a pouco, numa pessoa sórdida, Edward Hyde.
Depois das primeiras tentativas de identificação com a sombra, isto é, com o seu alter-ego que é Hyde, Jekyll dá-se conta do perigo que corre e apressa-se a justificar a sua história de desdobramento, que pode, supõe ele, conduzi-lo à degradação moral. O médico tenta convencer-se de que está a fazer esta experiência em nome da ciência e, para tranquilizar a consciência, qualifica de “inofensiva” tal transformação. Chega mesmo ao ponto de ver nela apenas uma diversão. Na verdade, o perigoso convívio com o seu “duplo”, Hyde, proporciona-lhe um certo prazer, que pode, pensa, levá-lo a fazer jogadas sem consequências.
John Sanford, no seu comentário da obra, prova que o erro fundamental do Dr. Jekyll foi aceitar tornar-se a sua sombra. Longe de procurar uma tensão fecunda com o seu “duplo”, Jekyll recusa o desconforto dessa situação e prefere perder-se em Edward Hyde (*). Não será que o libertino faz o mesmo quando diz que a melhor forma de se libertar de uma tentação é ceder-lhe?
À medida que Jekyll se compraz cada vez mais em tornar-se Hyde, aquele cede progressivamente às exigências desta personagem tenebrosa. As suas frequentes decisões de parar com esta situação – até chega a retomar a prática religiosa – não são capazes de o libertar do poder de Hyde. Atinge então um ponto de não retorno em que todos os princípios morais e o domínio de si lhe escapam por completo. Fica à mercê de forças diabólicas contra as quais já nada pode. Impotente para resistir às suas pulsões de sadismo, chega a matar o colega, o bom Dr Carow.
A aventura do Dr. Jekyll ilustra bem o fracasso a que nos conduz a capitulação perante as pulsões da sombra. Esta atitude, longe de resolver a tensão moral, não ajuda em nada à reintegração da sombra.
Identificar-se ora com o ser, ora com a sombra
Neste caso, o indivíduo leva normalmente uma vida moral exemplar. A sua reputação de cônjuge, de pai e de cidadão modelo faz inveja a todos. Depois surgem momentos de fadiga e de depressão. As pessoas tomam então liberdades em relação aos seus princípios morais. Estes desvios temporários do comportamento assumem formas variadas, com graus de gravidade muito diversos: extravagâncias amorosas, aventuras sexuais, acessos de cólera, excesso de bebida, pequenas patifarias, calúnias, maledicências, etc.
Tais pessoas, seduzidas momentaneamente pela tentação, voltam a cair em si, arrependem-se das suas faltas, e tomam boas resoluções até reincidirem. Estão, com efeito, prisioneiras de um ciclo infernal. Recordo o caso de alguém, reputado pela sua incansável dedicação. Após períodos de trabalho intenso, deixava-se invadir por uma das suas sub-personalidades sombrias, que o levava aos maus caminhos da desordem sexual. Durante vários anos conheceu períodos de generosidade alternando com períodos de desvios sexuais.
Divididas entre as aspirações do ser e os impulsos da sombra, as pessoas correm o risco de naufragar ciclicamente num marasmo psicológico e espiritual e de ficarem prisioneiras de um círculo vicioso.
A denúncia das projecções doentias
O próprio Jesus Cristo denunciou aquilo que podemos considerar hoje o carácter nocivo das projecções da sombra, já que abominava os juízos malévolos contra o próximo.
A tal respeito fez afirmações que continuam actuais: Porque assinalas o cisco que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu olho? Como podes dizer ao teu irmão: ‘Irmão, espera. Eu tiro o cisco que tens no olho’, se tu não vês a trave que tens no teu? Homem de juízo perverso, tira primeiro a trave do teu olho! E então verás melhor para tirares o cisco que está no olho do teu irmão.(**)
Jesus exprime assim, à sua maneira, o que procurávamos demonstrar neste capítulo: antes de julgarmos os outros, pensando que estamos a ajudá-los, melhor seria resolvermos trabalhar sobre nós mesmos e aprendermos a recuperar as projecções da nossa sombra.
Cristo denuncia as projecções malévolas porque conhece os seus efeitos sobre aqueles a quem se dirigem. Fá-lo, nomeadamente, aquando do episódio da mulher adúltera maltratada por um grupo de homens. Uma mulher acabava de ser apanhada em flagrante delito de adultério. Os homens que a levaram junto do Mestre estavam a fazer dela “bode expiatório” das suas próprias faltas sexuais. Com uma frase lapidar, Jesus inverte a situação; interpela-os, fá-los tomar consciência da projecção e convida-os a assumir a responsabilidade das próprias faltas: Aquele dentre vós que nunca pecou atire a primeira pedra.(***)
Mas a denúncia das projecções maldosas lançadas sobre os outros não se faz sem perigo, porque pode atrair sobre o denunciante a vingança das pessoas assim postas em causa. O destino que Jesus teve de sofrer ilustra-o bem.
(*) C. Zweig, J. Abrams (eds.), Meeting the Shadow: The Hidden Power of the Dark Side of Human Nature, Los Angeles, Jeremy P. Tarcher, 1991.
(**) Lucas 6, 41 – 43.
(***) João 8, 7.

