Por Connie Zweig e Jeremiah Abrams (orgs.)
Ao Encontro da Sombra
S. Paulo, Cultrix, 1998
Excertos adaptados
Há culturas nas quais a amizade é celebrada através de rituais. Na Índia, os rapazes casam-se duas vezes: na puberdade, com um amigo, numa promessa de amizade eterna, e aos 16 anos, com uma rapariga, também numa relação que se pretende que dure toda a vida. Estes rituais oferecem ao rapaz uma sensação de segurança dentro da precaridade da sua vida. Na Alemanha, existe uma cerimónia para selar uma amizade, que requer que duas pessoas, cada uma com um copo de vinho ou de cerveja na mão, se tornem fisicamente próximas ao entrelaçar os braços e beber à saúde de uma amizade eterna.
Este tipo de amizade não é uma amizade entre personae (as “máscaras”sociais, os papéis desempenhados em público), que surge em determinadas circunstâncias, tais como um ambiente de trabalho comum, uma equipa onde ambos praticam desporto, ou associações de pais. Não decorre de objectivos comuns, sejam as pessoas membros de um clube ou membros de uma comunidade espiritual em busca de um grau de consciência mais elevado.
Numa amizade entre personae, podemos sentirmo-nos atraídos pelas defesas da outra pessoa – dinheiro, sexo ou poder – e tentar conquistá-la para nosso benefício, usá- la para os nossos próprios fins. Podemos fossilizar-nos em determinados papéis (um dos amigos assegura a dependência do outro), em determinadas situações (um dos amigos sente-se superior e o outro sente-se inferior, experimentando vergonha e inveja), ou podemos ainda partilhar o gosto por um passatempo comum, tal como compras ou basquetebol, sem que haja trocas de grande intimidade. Numa amizade entre personae, ambas tendem a ser pessoas sentimentais, o que é um substituto para emoções mais profundas e obscuras.
Numa amizade entre almas, pelo contrário, honramos e reconhecemos a natureza essencial do outro. Os papéis são mais fluidos. O respeito é mútuo. O laço que se forjou não depende do fazer mas do ser. A amizade entre almas exige uma lealdade que vai para além dos sentimentos ou opiniões passageiros do amigo, uma fidelidade que vai para além de objectivos ou aparências temporários. Exige autenticidade, lealdade à alma. Oferece-nos, em troca, um lugar no qual não temos de nos esconder.
A amizade da alma tem diferentes significados em diferentes contextos. Para raparigas que se encontram na adolescência e se tornam inseparáveis, permanecendo juntas durante a faculdade e mesmo depois do casamento e da maternidade, a amizade sobrevive à passagem do tempo. Continua firme apesar das diferentes circunstâncias da vida e das diferenças de desenvolvimento de cada amiga. Pode perder em intensidade, permanecer apenas latente durante anos, ou ser a única relação duradoura que ambas conheceram. Essa amizade proporciona a cada uma das mulheres, na figura da outra, uma testemunha da sua vida e um refúgio.
A memória de uma história partilhada é a chave para estas amizades duradouras. A deusa da memória, Mnemosina, assegura a relação ao permitir aos amigos partilhar o passado, mesmo quando os laços do presente são ténues. Como mãe das Musas, Mnemosina adora devaneios, narrativas, poemas e mitos, bem como as imagens que sustêm as narrativas. Quando os amigos recordam o passado, estão menos interessados nos factos do que do que nas memórias simbólicas, os momentos intensamente sentidos, plenos de profundidade. A amizade, tal como a psicoterapia, permite que esta qualidade subjectiva da memória se manifeste.
Alguns amigos que se encontram anos mais tarde sentem-se como se se compreendessem sem ter de falar. A afinidade transcende a sua história pessoal. Por isso, não necessitam de falar do passado. Falam logo do presente, porque os laços que os unem são intemporais, como se algo tivesse colado os seus destinos.
Aqueles que se sentem atraídos pelas suas afinidades, sentem-se como se estivessem com um gémeo. Tal como aconteceu com os gémeos gregos Castor e Polux, há tribos africanas em que o amigo ideal é o irmão gémeo. Acredita-se também que as crianças nascidas no mesmo dia, embora nascidas separadas, têm um laço a uni-las que durará toda a vida. Personificam o mistério da coexistência de duas pessoas numa.
Outros amigos há que não são atraídos pelas afinidades como pelas diferenças, diferenças essas que os ajudam a manter a sua própria identidade. O amigo é o Outro, aquele que desafia as nossas capacidades e nos impõe limites. No amigo-sombra encontramos o Outro para nos encontrarmos a nós mesmos.
Quando Eve, uma artista de S. Francisco, encontrou Myra, uma estudante de Direito sino-americana, deu-se uma colisão de mundos. As suas diferenças culturais e pessoais eram explosivas. Como reacção a uma mãe controladora, Eve tinha desenvolvido um estilo de vida livre de obrigações, compromissos pessoais ou laborais. Myra, pelo contrário, acreditava no dever para com a família, os amigos e o trabalho. Desejava servir os outros, estruturar o seu tempo, e conservar a sua privacidade e simplicidade. Ambas queriam ser amigas uma da outra. Cada uma delas se sentia atraída pelas diferenças da outra. No entanto, como tinham banido para a sombra muitas das qualidades da Outra, irritavam-se com frequência. Como dizia Eve: “É penoso estar em guerra com a minha própria natureza que está dentro da minha amiga.”
Para que a sua amizade pudesse sobreviver, Eve e Myra tiveram de trabalhar as suas próprias sombras. Tiveram de aprender a ter paciência uma com a outra e a tolerar as respectivas diferenças. Precisaram de observar as projecções da sombra que faziam, de modo a parar com o ciclo de sofrimento que se causavam mutuamente. Se cada uma tivesse tentado converter a outra às suas características, a amizade teria soçobrado. Ao explorarem as suas especificidades e as da amiga, cada uma descobriu formas de se enriquecer e enriquecer a amizade, alargando horizontes até então limitados às suas formas pessoais de ver o mundo.
Há pares para os quais a Alteridade do outro é demasiado sombria e desconfortável. Assim, nem sequer se pode iniciar a amizade. Quando Brian, de trinta e cinco anos, conheceu Sam, de vinte e oito, sentiu-se repelido pelas tentativas deste de estabelecer amizade. Não percebia por que motivo o tom de voz de Sam e a sua abordagem tinham despoletado nele uma reacção tão negativa.
“Quando o Sam fala, é sempre muito gentil, como não quisesse ofender ninguém. Fala sem cessar sobre a sua religião new age. Acha que se todos meditassem como ele, poder-se-ia pôr um fim à violência. Não suporto esta atitude delicodoce, esta negação espiritual do sofrimento da vida. É tão farisaico; fala como se tivesse as respostas para todas as nossas necessidades. Fico doido.”
Brian também tinha estado envolvido numa comunidade de meditação alguns anos antes, e tinha-se sentido profundamente desiludido com as suas práticas e preceitos. Tinha entretanto casado e sido pai, assumindo as suas responsabilidades familiares e laborais. Quando encontrou Sam, foi como se tivesse encontrado uma parte passada de si mesmo, que agora lhe parecia ingénua e inautêntica. Ouviu na voz do outro o seu próprio farisaísmo e pô-lo de lado.
Se, em vez de guardar para si estes sentimentos de vergonha pelo passado, Brian os tivesse trabalhado, talvez sentisse compaixão por Sam, quer se tornasse ou não seu amigo. Como não o fez, ficou refém da sua projecção da sombra e tornou-se cego a qualquer contributo que Sam lhe pudesse trazer. Também não pôde decidir se aprofundava ou não a relação.
James Hillman chamou a atenção para o facto de que o Outro, que se pode tornar amigo ou inimigo, é-nos mais dado que escolhido. Neste sentido, é um instrumento do destino. O reconhecimento de amigos-sombra pressupõe o reconhecimento de laços profundos e o levar a cabo de obrigações mútuas. O falhanço de um dos amigos em desempenhar a sua parte redundará em desapontamento amargo.
Quem é o nosso amigo da alma? Quem é o nosso amigo da sombra? Que amizade sacrificámos devido a uma projecção da sombra?

