Imagem: Charles H. Sylvester, Journeys Through Bookland. Chicago: Bellows-Reeve Company, 1909


Wagner de Menezes Vaz
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo
wmvaz@yahoo.com

Rafael Rodriguez
Psicólogo e Pós-graduando em Teoria e Terapia Junguiana pela Universidade Estácio de Sá/Rubedo
rafaelrodriguez@globo.com

 

Trabalho originalmente apresentado no evento Contos de Andersen – Leituras Psicológicas, promovido pela Rubedo em junho de 2008.

Em 1843, Hans Christian Andersen publica este que é o seu mais famoso conto e, posteriormente, sendo traduzido para o inglês e o alemão, obtém grande receptividade o que o projetaria definitivamente como um renomado escritor. Filho de sapateiro e de lavadeira, apesar das dificuldades, nunca desistiu de seu interesse pela arte.

A infância pobre teve grande influência em seus escritos. Que sentimentos se ocultavam por trás deste homem castigado pela vida e que, até aquele momento, não havia se revelado com grande sucesso em sua carreira literária? Teria sido este o motivo da criação de seu “Patinho Feio” que se tornou um belo cisne e que atingiu a felicidade quando amadureceu?

O “Patinho Feio” é considerado o conto mais autobiográfico de suas obras. Como disse um de seus biógrafos, Jens Andersen (2005, tradução nossa), “[…] mais que qualquer outro conto antes contado, este seria sobre ele.” Não tanto pelo fato dele também não possuir atributos estéticos como o patinho feio, mas porque tal sucesso, coincidentemente, só veio com o lançamento deste conto, já adulto, aos 38 anos de idade, chamando a atenção de todos para o grande escritor de contos de fada, romances, e até mesmo de livros de viagem que ele era. Andersen pode até ter sido rejeitado pela Grande Mãe da vida, por conta de sua infância difícil e pobre, mas não por seus pais.

Vejamos algumas passagens do conto. Uma ave que nasce em um ninho que não é o de sua espécie sofre rejeição de todos ao seu redor, exceto de sua mãe que demonstra, a princípio, uma clara esperança que seu filho se torne o mais bonito e o melhor nadador, até finalmente cair no discurso social e desejar não vê-lo mais devido à sua feiúra. Assim, sem opção, ele sai para a vida sozinho e sem rumo, pretendendo viver sem saber como, sobreviver sem saber por que, procurando viver longe de um lugar onde o rejeitaram. Porém, sabendo que nunca deixaria de ser o feio e considerado persona non grata por todos de sua comunidade, ele se torna o espelho do que lhe atribuíram ser.

Quando os filhotes nascem, a primeira coisa que buscam é um rosto no qual se mirar. Ao se defrontar com este rosto, eles o reconhecerão como sendo o de sua mãe. E os patinhos irão segui-la até estarem maduros. O que chama a atenção neste conto de Andersen é a questão da identidade e de como esta é construída a partir do reflexo. Mario Jacoby (1984, p.47) irá se referir a isto como ressonância empática, conceito este desenvolvido por Kohut. Então vejamos: a primeira reação da mãe ao ver seu filho desengonçado foi de espanto. E foi através desta reação, através do reflexo especular materno, que travou seu primeiro contato com o mundo. O mundo lhe dizia: – “Como és feio!”. Uma ferida narcísica se faz presente – existem outros mais afortunados, com mais sorte e possibilidades. São mais bonitos e contam com a aceitação social.

Uma ferida narcísica é uma ferida emocional, difícil muitas vezes de ser curada. Ela é um impeditivo à construção de uma identidade e, por conseguinte, dificulta a criação de uma maneira própria de viver. As animosidades constantes entre a mãe e o patinho feio acabaram por forçar a um corte prematuro dos laços afetivos. A falta de um sentimento de pertença, que confere identidade ao indivíduo, inexiste no patinho feio. Não existem laços que o liguem à sua família e nem tampouco à sua comunidade. Sua auto-estima fica comprometida. No conto, ao fugir pelas moitas, o patinho feio espanta os pássaros aninhados, afirmando para si: “Deve ser porque sou tão feio!”. A identidade se constrói mediante a formação de laços sociais e, por conseguinte, no diálogo com a alteridade. Caricaturalmente, a ausência de laços favorece o patinho feio, de forma que ele afirma: “[…] Sou tão feio que nem o cachorro me quis morder”. Neste caso a estratégia de acatar o discurso da feiúra atua como uma defesa narcísica a fim de proteger o Ego da dor.

A natureza muitas vezes pode parecer cruel proporcionando experiências desafiadoras ao recém-nascido, porém sua sobrevivência dependerá desta sua capacidade de adaptação. A mamãe pata como uma representante do discurso social procura transmitir os valores. Ela diz: “Vejam só! Assim é o mundo!”. Fisicamente um pato deve ter atributos que o caracterize como tal e suas funcionalidades devem estar operantes. É assim que se comporta um pato. O nosso personagem destituído, para aquele meio específico, dos atributos esperados não tem o reconhecimento do seu entorno de que ele era de fato um pato. Seus atributos confundem sua família e a vizinhança. A mãe se encontra perturbada; seu instinto de mãe entra em atrito com os valores sociais. No começo, ela defende seu rebento procurando, compensatoriamente, ressaltar-lhes as qualidades – “[…] Se quer que o diga, nada até um pouco melhor […] é um pato macho, e aí não importa tanto”. Ao mesmo tempo em que seu instinto materno a conduz a um comportamento protetor para com o desajeitado, ela tem dúvidas com relação a ser ele um de sua espécie. Os valores se impõem – “[…] Larga-o aí e ensina os outros filhotes a nadar”. A identidade grupal torna-se ameaçada ante a consciência das diferenças.

Sendo assim, o patinho teve uma vida miserável até atingir sua maturidade, correndo risco de vida o tempo todo, sendo perseguido e depreciado. Por conta disto, sente medo de tudo, até de quem não lhe quer mal; sente-se um sem-lugar no mundo, ou melhor, ocupa esta posição de não-aceito, não-visto, não-querido.

Numa tarde de fim de outono, o patinho feio avistou à beira do lago aves enormes e alvas que levantavam vôo rumo a terras mais quentes e sentiu uma irresistível vontade de acompanhá-las. Citando o conto: “Como poderia ter ousado desejar para si uma tal delícia [a de voar como os cisnes] ele que já se teria dado por muito feliz se os patos o tivessem tolerado em sua companhia, pobre bichinho feio?”. Neste episódio o patinho feio descobre o que é a felicidade; por aquelas aves sente uma identificação inexplicável, mas que gera um sentimento de nostalgia “não-vivida”, uma melancolia do desconhecido, como se seu inconsciente gritasse em sua surdez. Diante deste ímpeto pela felicidade, e após passar por possibilidades de aceitação, experiências tristes e aterradoras que só reforçavam a utopia de um dia ser feliz, decide no início da primavera, após novamente avistar os cisnes, entregar-se a sua pulsão de vida (ou seria de morte?) e arriscar sua inútil existência de dor à possibilidade de estar perto das criaturas mais felizes da Terra, por um instante que fosse, como se pudesse se contagiar de tanta alegria, e podendo mesmo ser ferido até a morte por aqueles grandes pássaros. Mal percebeu ele que também havia se tornado um grande pássaro e, como Narciso, somente ao ver seu reflexo na água do lago, foi capaz de se apaixonar por si mesmo e reconhecer a magnitude de seu ser. Só a partir deste momento sentiu alívio e satisfação por ter vivido tudo o que viveu, pois o que lhe aguardava após o enamoramento pela vida seria venturoso. Agora era elogiado como o mais belo dos belos. A experiência de contemplar sua imagem refletida na água foi de fato uma experiência numinosa e redentora.

Uma dinâmica muito parecida e comum ocorre na sociedade ocidental pós-moderna, no que tange ao papel do localizador para um problema familiar ou social, geralmente em um dos integrantes da família ou da sociedade. Algumas patologias psíquicas familiares e grupais são, fazendo-se uma análise atenta, centradas em indivíduos específicos, geralmente um dos filhos, ou moradores de rua, por exemplo, mirando-os como os culpados pela desordem, ou os doentes destacados do todo. Nunca como o retrato da doença coletiva ou o espelho de um traço comum a todos os integrantes de tal coletividade. Filhos drogadictos, pais problemáticos, sujeitos exageradamente “avoados” ou acomodados, esotéricos e fanáticos religiosos, obsessivos e sistemáticos, hoje em dia toda diferença é um “gancho” para eleger um localizador de problemas.

3 comentários em “AS FERIDAS DO PATINHO FEIO: Uma Visão Junguiana do Conto de Hans Christian Andersen (Parte 1)

  1. Embora quando a mulher é fisicamente feia, ela corra o risco de ficar sozinha.
    Tenha que se contentar com parceiros tão feios quanto ela.
    Ou precise aturar os abusos cometidos pelo companheiro…
    Já que a mulher não é muito focada na aparência física do parceiro.
    Caso o companheiro possua alguma excepcional qualidade psicológica, que amenize a sua feiura.
    A mulher precise de proteção, ou a companheira seja viciada em sexo…
    Ainda que o companheiro não seja fisicamente muito atraente, até mesmo a mulher bonita pode se apegar ao parceiro que preenche as suas necessidades e expectativas.

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