Por Nelson Blecher
(Entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo, em 8 de junho de 1991.)
Até a metade da década de 70, Roberto Gambini era um conhecido intelectual acadêmico, autor de O duplo jogo de Getúlio Vargas, pesquisa baseada em correspondência diplomática. Advogado e sociólogo, com mestrado em ciência política na Universidade de Chicago, lecionou na Unicamp e na PUC. Por conta de uma crise pessoal, Gambini afastou-se da universidade e submeteu-se à análise junguiana, durante a qual teve o insight que o levou a mudar de profissão.
Transferiu-se para Zurique, na Suíça, onde fez sua formação profissional no Instituto C. G. Jung. Aos 46, Gambini mantém uma clínica em São Paulo. Publicou, em 1988, O espelho índio, livro no qual incorporou conceitos formulados pelo psicólogo Carl Gustav Jung.
Nesta entrevista à Folha, Gambini discorre sobre a atualidade do pensamento junguiano.
Folha – Qual é o principal legado de Carl Jung, 30 anos após a morte do psicólogo suíço?
Roberto Gambini – Um dos pontos importantes é a concepção junguiana de que o inconsciente não é apenas um fenômeno pessoal, mas também coletivo e, portanto, que as pessoas são influenciadas por um conjunto de forças extremamente atuantes e imperceptíveis. Jung fez análises brilhantes do nazismo e da guerra, com um foco muito rico para se entender um momento de conflito através da constelação do inconsciente coletivo em determinados momentos, as polaridades ali ativadas etc. É um prisma até hoje pouco explorado por historiadores.
Folha – Como o senhor se apropriou desse equipamento junguiano em seu livro O espelho índio?
Gambini – Eu queria descobrir o que a civilização européia fez com o índio no Brasil. Meu material eram cartas escritas pelos jesuítas. Usei categorias junguianas para investigar a psicologia inconsciente deles. Ao se analisar o método de meditação percebe-se que estavam loucos para iniciar uma cruzada contra o demônio. Não foi difícil achá-lo nos pajés. Há uma clara projeção do conteúdo inconsciente.
O jesuíta tem uma sombra: ele reprime a sexualidade, a liberdade, os instintos. Tudo o que é reprimido sai pela via da projeção, que no caso recaiu sobre o índio. Para educá-lo proíbe que ele beba cauim, que mantenha as festas, ande nu, seja polígamo. O grande drama histórico é que o cristianismo cometeu um tremendo erro: em vez de impedir que os portugueses fossem bárbaros, tirou a cruz do ombro do cristão e fez o índio pagar pelos “pecados”.
Folha – Apesar de várias expressões junguianas terem se incorporado ao léxico, o fundamental de sua obra, ao contrário do que sucedeu com Freud, pouco penetrou no mundo acadêmico. Por quê?
Gambini – O divisor de águas é a questão do racionalismo. Positivista e racionalista, o pensamento freudiano se encaixa sem nenhuma fricção na cultura ocidental. Jung, embora use a linguagem científica, opera com um discurso não-racional. Ao discorrer sobre sincronicidade, pede que você seja tolerante e admita coisas que não podem ficar aristotelicamente claras.
Para Jung, o princípio da causalidade não é o único que existe. Há também o princípio acausal. O establishment intelectual marxista e freudiano não lida com facilidade com o não-racional. Isso cria um preconceito: o de que Jung seria um místico. Não é verdade. Jung observava o fenômeno místico.
Folha – Quer dizer que o establishment conhece mais os estereótipos do que propriamente o pensamento junguiano?
Gambini – Exatamente. Por isso, não lê Jung. Além do fato de ser leitura difícil. Misterium conunctionis, por exemplo, é uma enciclopédia de alquimia, de idéias de difícil assimilação. Mas a vanguarda da física contemporânea está encontrando a psicologia do inconsciente segundo Jung. E também está sendo cada vez mais difundido junto aos que lidam com biologia, literatura, história das religiões, arte, teatro, cinema e mitologia, porque seu pensamento ajuda a iluminar esses campos. A resistência vem mais da vertente moderna do pensamento positivista do século 19.
Folha – Existe unanimidade entre os seguidores da escola junguiana?
Gambini – Hoje se pode falar em escolas junguianas. James Hillman, que foi diretor de estudos do Instituto Jung, extremamente criativo, começou a desenvolver outro filão, o da psicologia arquetípica, que saiu um pouco da clínica e entrou na cultura. Considero a sua contribuição muito importante. Por exemplo, ao resgatar, de forma muito atual, os deuses gregos e buscar as manifestações de Marte na vida cotidiana. Pode-se afirmar que existe uma multifacetação do pensamento compacto de Jung.
Folha – Os futurólogos não conseguiram detectar o desmoronamento do bloco socialista. E de que forma os conceitos junguianos poderiam elucidar a realidade de um mundo cada vez mais complexo?
Gambini – Um mero analista junguiano que trabalhasse com europeus orientais, em tese, já poderia estar sabendo dessas coisas muito antes delas acontecerem, através do inconsciente de seus pacientes, assim como Jung percebeu a iminência da guerra, no natal de 1913. Viu geograficamente um mar de sangue descendo da Alemanha, passando pelos Alpes, mas não entrando pela Suíça.
O que acontece no mundo é o espelho de nossa psique, a exteriorização de uma realidade análoga. Jung achava que a psique individual ou coletiva é animada por uma finalidade. É auto-regulatória, cria sintomas e doenças para que uma pessoa se transforme. Uma neurose, em última análise, pode ser um ato de graça. Coletivamente, isso também se aplica. Os males externos, que refletem um problema interno, ocorrem para que a sociedade se transforme, mesmo correndo o risco de se destruir.
Folha – O estilhaçamento das ideologias, que deixou muito intelectual sem mochila, tende a reforçar as propostas junguianas?
Gambini – Uma idéia muito forte para Jung, ainda não digerida, é expressa no Aion. Jung diagnostica os dois mil anos da era cristã como sendo a era dos opostos. Não é coincidência que o seu símbolo sejam dois peixes em sentido oposto. A idéia é que a era cristã faz parte de uma longa evolução humana e que tinha de ser vivida com os contrários em oposição: Oriente e Ocidente, civilizados e bárbaros, catolicismo e protestantismo, comunismo e capitalismo.
Jung manifestava temores de uma Terceira Guerra Mundial. Teve visões, expressas em documentos não divulgados, de que haveria uma destruição parcial muito séria. Mas também acreditava na evolução para a era seguinte, de Aquário, cuja imagem – um homem que recolhe água num cântaro – significa trabalhar com o inconsciente para reunir a base natural instintiva da qual o homem foi se afastando. Estamos no ponto crítico. Jung não acreditava, no entanto, na revolução social, mas numa revolução individual que repercute socialmente.
Folha – como analisar a problemática da sociedade brasileira sob essa ótica?
Gambini – Na mitologia coletiva brasileira há a figura do salvador. Temos um país bonito, rico e fértil. No entanto, tudo vai mal. Por quê? Porque as cosias não andam certas, mas haverá de vir um salvador. Projeta-se o salvador no primeiro que se candidatar, como projetado no Collor e, antes dele, em Getúlio. A outra implicação é que se uma coletividade é regida por um mito salvacionista não desenvolve a cidadania. No fundo, é uma coisa sebastianista que nós herdamos dos portugueses.
Fonte: http://www.cefetsp.br/edu/eso/jungmisticoounao.html
